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Quarta, 15 Fevereiro 2017 14:30

O Mito dos Pais Perfeitos

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Educar os filhos ficou mais difícil? Especialistas discutem as diferenças de criar uma criança no mundo de hoje

Renata Losso, especial para o iG São Paulo| 04/

Pais se sentem culpados e usam os limites como barganha

Com tantas mudanças no mundo ao longo das últimas décadas, da entrada massiva da mulher no mercado de trabalho aos avanços da tecnologia, a família com papéis previamente determinados – o “pai-provedor” e a “mãe-cuidadora” – perdeu seu lugar, assim como a posição invariavelmente autoritária (e não de autoridade) dos pais diante dos filhos. 

De acordo com a psicóloga e psicopedagoga Elizabeth Monteiro, autora do livro “Criando Filhos em Tempos Difíceis – Atitudes e Brincadeiras para uma Infância Feliz” (Editora Mercuryo), os pais ficaram um pouco perdidos diante deste cenário. “Aquilo que servia deixou de servir, mas um novo papel não foi encontrado para ser reposto”. E assim começou a dificuldade dos pais. 

Caio Feijó é psicólogo e autor do livro “Pais Competentes, Filhos Brilhantes – Os Maiores Erros dos Pais na Educação dos Filhos e os Sete Princípios Fundamentais para Prevenir essas Falhas” (Novo Século Editora). Para ele, o sistema familiar atual se tornou horizontal: o pai não está mais no topo da pirâmide e, agora, quem tiver mais sentimento de culpa se submeterá a quem se colocar como vítima. É nesta hora que os filhos dominam os pais. 

Muitas crianças passam boa parte do dia com babás, na escolinha ou com outro parente. Os pais, trabalhando muito e passando pouco tempo com os filhos, caem na armadilha da permissividade e deixam de estabelecer limites como uma forma de barganha. 

Falta de limites e insegurança 

Trabalhar e dar a devida atenção aos filhos é possível, embora difícil. Mas se os pais ainda não sabem exatamente o que fazer, o cenário se complica. Segundo a psicóloga infantil especialista em família Pat Spungin, da Inglaterra, a autoridade dos pais também enfraqueceu ao longo do tempo e eles ficaram relutantes em dizer “não” às crianças por não se sentirem seguros de seus papéis como pais. 

“Cinquenta anos atrás não se pensava em que tipo de pai se era, os filhos apenas eram tratados da mesma maneira com que os pais tinham sido criados. Hoje eles se sentem julgados e inseguros sobre como devem se comportar, já que ser pai é um papel em que algumas pessoas são boas e outras não”, diz. Se unirmos essa característica à facilidade de acesso à informação que a criança tem atualmente, já podemos ver os riscos dobrando a esquina. 

Para a britânica, hoje em dia as crianças estão mais expostas às drogas e começam a beber por volta dos 14 anos. Muitas vezes, ainda, se sentem pressionadas a fazerem sexo antes mesmo de se sentirem prontas. Do outro lado, muitos pais não sabem falar sobre estes assuntos com os filhos. 

Buscar o modelo de pai ou mãe ideal só causa mais estresse na criação dos filhos

De acordo com Pat Spungin, não é apenas o trabalho dos pais que dificulta a criação e o vínculo com as crianças. “Muitas vezes as crianças estão escolhendo atividades que os mantêm longe dos pais e, mesmo em casa, ficam no computador, no videogame ou na televisão”, diz. Quando não há limites ou postura crítica, a tecnologia serve de porta de entrada para o consumismo infantil e para o ideal utópico da perfeição . 

Buscar o modelo do pai ou da mãe ideal na casa do vizinho ou na mídia só vai deixar os pais mais perdidos. O mundo não é perfeito e não poderia ser diferente com você. Em vez de tentar ser um pai ou uma mãe perfeita, portanto, o melhor é ter como meta ser “bom o suficiente” e encarar a tarefa com responsabilidade, mas mais tranquilamente. “Não existe uma maneira perfeita para se criar um filho. Cada forma é diferente e o que funciona com um pode não funcionar com outro”, diz Pat Spungin. 

Trabalhar o triplo para dar à criança o tênis da moda não vai levar a nenhum benefício de longo prazo: é preciso estar atento ao que realmente essa criança precisa e requer. Para a britânica, isso acaba sempre se resumindo a amor, limites e liberdade para serem elas mesmas – e não um produto de seus pais.

Última modificação em Quarta, 27 Setembro 2017 18:01

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